A antiga Fábrica do Açúcar, em Ponta Delgada, não pode continuar refém da hesitação do Governo Regional, nem da ausência de uma visão clara do Município para aquele espaço. Trata-se de um imóvel com elevado valor patrimonial, histórico e identitário, mas também de um espaço em que se define uma das respostas públicas mais urgentes de que o concelho precisa, a habitação.
A crise habitacional deixou há muito de ser um problema abstrato. A falta de oferta, a subida dos preços e a dificuldade crescente de acesso a uma casa compatível com os rendimentos disponíveis atingem cada vez mais famílias, em especial a classe média, os agregados com rendimentos intermédios e muitas famílias jovens. Perante esta realidade, deixar todo o espaço da antiga SINAGA na indefinição é desperdiçar uma oportunidade que Ponta Delgada não se pode dar ao luxo de perder.
Mas responder à crise habitacional não significa descaracterizar o imóvel, nem usar a preservação como desculpa para não decidir. O interesse público exige uma solução equilibrada, e o processo de reflexão e discussão pública, entretanto desenvolvido, mostrou que ela é possível.
O trabalho realizado, com o envolvimento da Ordem dos Arquitetos, da Comissão de Trabalho para a Requalificação da Fábrica do Açúcar e de especialistas, demonstrou que é possível compatibilizar a recuperação do edificado com uma componente habitacional, integrando valorização patrimonial, espaços verdes, estacionamento, alojamento intergeracional e outros usos socialmente necessários.
É esta visão que deve prevalecer, perante a urgência pública do presente, a antiga SINAGA consegue dar uma resposta com escala, sem ignorar o valor do lugar. Simultaneamente, a intervenção deve assegurar a salvaguarda dos elementos edificados relevantes e da memória histórica, industrial, arquitetónica e identitária daquele conjunto, preservando a sua singularidade e integrando os usos compatíveis com o interesse público.
Por isso, o PS propugna que o Governo Regional assuma uma decisão célere e calendarizada, garantindo o financiamento e a transparência na execução, mantendo o acompanhamento técnico da Ordem dos Arquitetos e da Comissão de Trabalho.
Ponta Delgada precisa de mais habitação, mas precisa também de qualificar a cidade e respeitar a sua memória. A antiga SINAGA permite fazer as duas coisas. O que falta, neste momento, já não é reflexão. É decisão política.